Envelhecer é enferrujar lentamente. A teoria da oxidação, hoje confirmada, foi concebida pelo investigador Jaime Miquel.
Resumir o currículo de Jaime Miquel em poucas linhas é uma tarefa difícil. Desde que obteve o doutoramento em farmácia, em 1953, publicou mais de 300 artigos. Foi ele que propôs, há mais de duas décadas, a hipótese de os danos do envelhecimento principiarem a nível celular nas mitocôndrias, os organitos onde se fabrica energia e se utiliza o oxigénio molecular para oxidar os nutrientes. Embora a hipótese de Miquel continue a ser válida, a telomerase, uma enzima que se encarrega de reparar estruturas situadas nas extremidades dos cromossomas (os telómeros), é, actualmente, a nova estrela. Os investigadores sugerem que a sua ausência ou funcionamento deficiente provoca a decadência das células. Segundo Miquel, a explicação está incompleta: independentemente de se estudar moscas, células, mamíferos ou invertebrados, devemos concentrarmo-nos nos factores comuns quando se lida com a decrepitude.
Quais são os fatores que determinam a deterioração celular?
Algumas células do corpo envelhecem, outras não. Os animais possuem três tipos: as germinais, que se dividem de forma ilimitada e podem mesmo dar origem a tumores; as diferenciadas que continuam a dividir-se e as diferenciadas que nunca se dividem, como os neurónios. Neste último caso, a telomerase não desempenha qualquer papel, pelo que não explica o seu envelhecimento. Trata-se de uma enzima importante no sistema imunológico, pois regenera as células imunitárias e tem influência no estado de saúde. Porém, um excesso de actividade dá origem a tumores. Vejo-a mais no cerne de uma explicação para o cancro e os mecanismos de imunidade.
Maquinarias biológicas
Explique-nos como trabalha a telomerase.
Protege os genes situados nas extremidades dos cromossomas, os telómeros. Para utilizar uma analogia, é como a capa que existe nas pontas dos atacadores dos sapatos para eles não desfiarem. Quando as células se dividem, essas extremidades vão ficando mais curtas. A telomerase regenera o ADN e trava a deterioração dos cromossomas. Curiosamente, porém, os neurónios não possuem essa substância e, mesmo assim, duram imensos anos no cérebro dos seres humanos.
As máquinas ficam desgastadas com a passagem do tempo. É o mesmo que nos acontece?
Um avião é concebido para voar, para fabricar energia, e vai-se estragando à medida que funciona. Os organismos são maquinarias biológicas; não há assim tanta diferença entre eles e uma aeronave.
Estamos programados para envelhecer?
Não. O organismo desenvolve-se, cresce e aumenta a capacidade para produzir energia, força muscular e memória. Nesse aspecto, sim, há um programa genético que permite ao corpo alcançar o máximo vigor e potencial de sobrevivência na etapa da reprodução sexual. A partir daí, começa o declínio, pois a faculdade de regeneração é inferior ao desgaste. No laboratório que dirigi na NASA, onde desenvolvíamos estudos de microscopia electrónica, publicámos uma foto dos testículos de um rato. Podemos ver nela células de um animal idoso que não definharam nada e, ao lado, outras feitas em pó, com manchas de envelhecimento. Fomos os primeiros a demonstrar que esses pigmentos eram mitocôndrias decrépitas.
E tudo o que se passa com as mitocôndrias deve ser levado a sério, não é verdade?
Era esse o denominador comum: não existe um mecanismo que compense a perda de mitocôndrias, responsáveis por produzir a energia necessária para o organismo. As células diferenciadas perdem energia à medida que envelhecem, um efeito secundário do processo de diferenciação celular. Depois de o organismo se ter reproduzido, a evolução já não se preocupa muito com o indivíduo. A longevidade depende mais da nutrição, da medicina, da cirurgia... Ou seja, de meios culturais.
Ratos e homens
Fez estudos pioneiros para ver como envelheciam as moscas, os ratos e as pessoas.
Começámos com uma população de cem moscas-do-vinagre. Trata-se de uma criatura extraordinária: pesa um miligrama, voa como um helicóptero, as fêmeas põem 20 ovos por dia, utiliza muito oxigénio e possui órgãos semelhantes aos dos mamíferos. Estabelecemos uma curva de longevidade, com base nessa centena de exemplares iniciais, contando quantos restavam no fim de cada dia. No começo, um pequeno número morria. A uma temperatura de 25 ºC, uma drosófila vive entre 70 e 80 dias. Repetimos a operação com os ratos. Descobrimos que morriam ao mesmo ritmo do que as moscas, só que a escala de tempo era de meses. Depois, aplicámos o procedimento à população de mulheres suecas. Nos três casos, a curva mantinha-se idêntica. A longevidade específica do indivíduo não é relevante para a espécie.
Está tudo relacionado com a capacidade para produzir energia...
Os genes das mitocôndrias estão menos protegidos do que os do núcleo celular e degeneram antes. Estão expostos aos radicais livres libertados durante a respiração, o calcanhar de Aquiles do envelhecimento. A primeira coisa que se nota é que o indivíduo começa a perder energia, tal como podemos observar nos resultados desportivos: há um pico em redor dos 20 ou 30 anos. O mesmo acontece com a memória. Esse apogeu de vitalidade decresce gradualmente nos indivíduos saudáveis. É por isso que os ciclistas se reformam tão cedo.
Nesse caso, a culpa é da respiração?
Exactamente: cada vez que respiramos, pagamos um preço. A teoria oxidativa já não é questionada. Trata-se de uma arma de dois gumes. No início, os organismos mais primitivos não usavam oxigénio. Quando evoluíram e começaram a gerar energia através desse elemento, multiplicaram a sua produção. O preço foi o envelhecimento e a morte.
Agora, vive-se muito mais. Há mesmo quem diga que, no futuro, iremos durar séculos.
Eu não vejo na medicina nem na gerontologia qualquer processo que permita aumentar assim tanto a longevidade. As pessoas que ultrapassam os 100 ou 110 anos mostram-se muito envelhecidas; é difícil preservar a saúde numa idade tão avançada. O ideal seria viver os anos suficientes para uma pessoa se poder manter autónoma.
SUPER 155 - Março 2011
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