terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Romantismo questões vestibular



O Romantismo brasileiro surgiu em 1836 com a publicação de “Suspiros Poéticos e Saudades” de Gonçalves de Magalhães. Mas se originou mesmo na Alemanha e Inglaterra no final do séc. XVIII e se desenvolveu no Brasil durante o séc. XIX.

A característica principal da Poesia Romântica é a expressão plena dos sentimentos pessoais, com os autores voltados para o seu mundo interior e fazendo da literatura um meio de desabafo e confissão. A vida passa a ser encarada de um ângulo pessoal, em que se sobressai um intenso desejo de liberdade.

O estilo romântico revela-se inicialmente idealista e sonhador, depois, crítico e retórico mas sempre sentimental e nacionalista.

CARACTERÍSTICAS GERAIS

-Exaltação dos sentimentos pessoais;
-Expressa os estados da alma;
-Exaltação da liberdade, igualdade e reformas sociais;
-Valorização da natureza;
-Sentimento nacionalista


Primeira geração do Romantismo

Os primeiros românticos são conhecidos como nativistas, pois seus romances retratam índios vivendo livremente na natureza, numa representação idealizada. O índio é transformado no símbolo do homem livre e incorruptível.
Nosso Romantismo apresenta como traço essencial o nacionalismo, destacando o indianismo, o regionalismo, a pesquisa histórica, folclórica e linguística, e a crítica aos problemas nacionais.

O principal representante do romantismo no Brasil na 1ª geração foi Gonçalves Dias, com a publicação de Primeiros cantos (em 1846), a expressão pioneira de uma legítima poesia nacional.

Principais obras de Gonçalves Dias

Poesia: Primeiros cantos (1846); Segundo cantos (1848); Sextilhas de Frei Antão (1848); Últimos cantos (1851); Os timbiras (1857)

Outros: Brasil e Oceania (1852); Dicionário  da língua tupi (1858)

A obra de Gonçalves Dias, pioneira em termos de realização poética de boa qualidade em nosso Romantismo, abrange os dois aspectos mais marcantes do nosso nacionalismo literário- o indianismo e a exaltação da pátria. Escreveu também poemas lírico-amorosos, em que revela quase sempre a impossibilidade de realização dos anseios afetivos diante de uma mulher idealizada. Alguns biógrafos vêem nesses poemas a influência da sua frustada paixão por Ana Amélia.

O poema seguinte, um dos mais conhecidos de nossa tradição literária, foi escrito em Coimbra, Portugal, em 1843.

Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá; 
As aves, que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá.
 Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores,
 Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores. 

 Em cismar, sozinho, à noite, 
Mais prazer encontro eu lá;
 Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 

 Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá; 
Em cismar — sozinho, à noite — 
Mais prazer encontro eu lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. Não permita 

Deus não permita que eu morra, 
Sem que eu volte para lá;
 Sem que desfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu´inda aviste as palmeiras,
 Onde canta o Sabiá.

Segunda geração 

O tema que fascinou os escritores da segunda geração romântica brasileira foi a morte. Nas obras dos escritores desse período está presente uma visão negativa do mundo e da sociedade, onde expressam seu pessimismo e sentimento de inadequação à realidade, pois viviam uma vida desregrada, dividida entre os estudos acadêmicos, o ócio, os casos amorosos e a leitura de obras literárias, como as de Musset e Byron.
A segunda geração, também conhecida como ultrarromantismo, encontra no Brasil discípulos fervorosos, que diante do amor apresentam uma visão dualista, envolvendo atração e medo, desejo e culpa. Em seus poemas, a imagem de perfeição feminina apresenta os traços de morte, condenando implicitamente qualquer forma de manifestação física do amor.

Principais representantes da segunda geração 

Álvares de Azevedo (1831- 1852)


Poeta romântico por excelência, Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo e estudou na Faculdade de Direito, porém, não chegou a concluir o curso. Faleceu jovem, aos 21 anos, vítima da tuberculose e da infecção resultante de um acidente de cavalo. A partir de então, desenvolveu verdadeira fixação com a própria morte, escrevendo a respeito da passagem do tempo, do sentido da vida e do amor - esse último, jamais realizado.

Seu livro de poesias, Lira dos Vinte Anos (publicada postumamente em 1853), carrega consigo a melancolia de um poeta empenhado em expressar seus sentimentos mais profundos. O conjunto de poesias também evidencia um poeta sensível, imaginativo e harmonioso.

Pode-se dizer que sua obra possui características góticas, pois retratam paisagens sombrias, donzelas em perigo, personagens misteriosas, envoltas em vultos e véus entre outros.



A frustração presente em sua obra é amenizada apenas através da lembrança da mãe e da irmã. Além disso, a perspectiva da morte, apesar de assustadora, traz conforto por saber que cessará a dor física causada pela doença e pelos sofrimentos amorosos do poeta. Veja no poema abaixo:

Se eu morresse amanhã!

Se eu morresse amanhã,viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu pendera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que dove n'alma
Acorda a natureza mais loucã!
Não me batera tanto amor no peito,
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Além de poeta, Álvares de Azevedo produziu a peça de teatro Macário (1852), escrita após haver sonhado com o diabo. A peça conta a história de um personagem que, em uma viagem de estudos, faz amizade com um desconhecido e descobre ser ninguém mais, ninguém menos que o próprio satã. Não há menções sobre o nome da cidade em que eles se encontram, porém, há referências diretas à cidade de São Paulo. Assim, o poeta aproveita para fazer uma crítica à devassidão na qual a cidade estava imersa.

Azevedo também escreveu um romance chamado Noite na Taverna (publicada postumamente em 1855), uma narrativa composta por cinco histórias paralelas sobre cinco homens que relatam, em um bar, histórias de terror vivenciadas pelos mesmos. São eles: Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johann. Os nomes são claramente europeus e fazem referência aos romances românticos produzidos naquele continente (especialmente os italianos e os alemães), bem como sua temática macabra, inspirada nos romances góticos.


Casimiro de Abreu (1839-1860)


Nasceu em Capivary (RJ) e aos quatorze anos embarcou com o pai para Portugal, onde escreveu a maior parte de sua obra, em que denota a saudade da família e da terra nativa. Poeta da segunda geração romântica, Casimiro escreveu poemas onde o sentimento nativista e a busca pela inocência da infância estão presentes. Pertenceu, graças à amizade com Machado de Assis, à então recém fundada Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número seis. Vítima da tuberculose, faleceu na cidade de Nova Friburgo (RJ).

Os aspectos formais de sua obra são considerados fracos, porém, sua temática revela grande importância no desenvolvimento da poesia romântica para as letras brasileiras. Sua linguagem simples, acompanhada por um ritmo fácil, rima pobre e repetitiva revelam um poeta empenhado na expressão dos sentimentos saudosistas com relação à pátria e à infância. Essa última, em tom de profunda nostalgia, revela um tempo em que a vida era mais prazerosa, junto à natureza e longe dos afazeres e das responsabilidades da vida adulta.

Sua produção poética está reunida no volume As primaveras (1859) cujo poema mais conhecido é Meus oito anos, em que o poeta canta a saudade da infância vivida:

 Meus oito anos

Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais

Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
A sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais.

Como são belos os dias
Do despontar da existência
Respira a alma inocência,
Como perfume a flor;

O mar é lago sereno,
O céu um manto azulado,
O mundo um sonho dourado,
A vida um hino de amor!

(...)

Fagundes Varela (1841-1875)


Abandonou a faculdade de Direito, casou aos vinte e um anos e teve um filho. A morte do filho, aos três meses de vida, que serviu de inspiração para a composição de um dos seus poemas mais importantes, Cântico do Calvário. A este fato também é atribuída a sua entrega ao alcoolismo, levando o poeta à depressão e à vida boêmia pelos bares. Ocupante da cadeira número onze da Academia Brasileira de Letras, por escolha de Lúcio de Mendonça.

Em contrapartida, sua obra cresce consideravelmente em função das amarguras da vida causadas pelas perdas dos filhos (outro filho seu morre, também prematuramente) e da esposa. Ela é variada e gira em torno da exaltação da natureza e da pátria, da morte, do mal-do-século, do sentimento religioso, além de poemas que tratam da abolição da escravatura em que prega uma América livre, como é o caso dos poemas presentes no conjunto Vozes da América (1864). Faleceu jovem, aos trinta e três anos.

Obras: Noturnas (1861); O estandarte auriverde (1863); Vozes da América (1864); Cantos meridionais (1869); Cantos religiosos (1878)

Veja abaixo, trecho do poema Cântico do Calvário:

Cântico do calvário
à memória de meu filho morto a 11 de dezembro de 1863

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.

Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!

Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, - caíste!- Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!

Junqueira Freire


Luís José Junqueira Freire nasceu em Salvador (BA), em 1832 e foi onde estudou Humanidades. Aos dezoito anos se tornou monge da ordem beneditina e permaneceu na vida religiosa por cerca de quatro anos. A clausura trouxe frustração e foi tema de suas poesias.

Junqueira Freire morreu com apenas vinte e três anos vítima de problemas cardíacos. Durante sua vida esteve dividido entre a vida religiosa, espiritual e a sua falta de fé e vocação para a vida celibatária. Suas experiências foram retratadas em suas duas obras poéticas: Inspirações do claustro e Contradições poéticas. 
A decisão do autor por uma vida monástica foi em razão dos problemas de convívio familiar sofridos e suas poesias são marcadas por uma autobiografia reveladora.

Além disso, nos poemas de Junqueira Freire constam a crise moral da igreja do século XIX e os conflitos do escritor entre a profissão de frei e os fatos que presenciou dentro da igreja. O poeta ainda expressou em suas obras seu pessimismo em relação à vida, seu interesse pelo mundanismo, sua sexualidade reprimida, seu desejo pelo pecado e seu sentimento de culpa. Evocava ardentemente por cura de suas mazelas ao mesmo passo que desejava a morte, encarando-a como uma amiga que vinha para lhe trazer paz eterna, como podemos perceber no poema “Morte”:

“Pensamento gentil de paz eterna, 
Amiga morte, vem. Tu és o termo 
De dous fantasmas que a exigência formam, 
— Dessa alma vã e desse corpo enfermo. 
Pensamento gentil de paz eterna, 
Amiga morte, vem. Tu és o nada, 
Tu és a ausência das moções da vida, 
Do prazer que nos custa a dor passada.” (...)

Junqueira Freira foge ao Romantismo quando preza pela forma rígida de seus poemas, ainda ligados ao neoclassicismo. Suas poesias foram tidas como comuns, por não assinalar caráter mais romântico, com a utilização de versos livres.

De um lado, o poeta afirma que seu lado religioso se deve ao ensinamento de sua mãe, ao passo que sua falta de fé se deve aos seus estudos filosóficos que matavam a sua crença, como bem mostra o prólogo de seu livro “Contradições poéticas”:

“Este livro é a história de minha vida. Uma educação cristã, porém livre, que minha mãe soube dar-me (...) As minhas poesias ortodoxas, portanto, pertencem à minha mãe. São sua inspiração. (...) À proporção que estudava, ia-me tornando mais filosófico, isto é, mais vaidoso, mais ignorante, mais incrédulo. As minhas poesias filosóficas pertencem a esses acessos de loucura."




3ª geração

A terceira geração é também conhecida como “O condoreirismo”, os poetas dessa geração apresentam estilo grandioso ao tratarem de temas sociais, eram comprometidos com a causa abolicionista e republicana desenvolvendo, assim, a poesia social.
Castro Alves é o poeta que mais se destaca. Inspirado nos princípios de Victor Hugo, ele começa a escrever poemas sobre a escravidão. Há, retratado em seus poemas, o lado feio e esquecido pelos primeiros românticos: a escravidão dos negros, a opressão e a ignorância do povo brasileiro.
Castro Alves ficou conhecido como “o poeta dos escravos”.

Principais representantes da 3ª geração 

Castro Alves


Nasceu em Curralinho e faleceu em Salvador (ambas na Bahia) em decorrência da tuberculose e de uma infecção no pé causada por acidente em uma caçada. Considerado um dos poetas brasileiros mais brilhantes, Castro Alves tem sua obra dividida em duas grandes temáticas: poesia lírico-amorosa e a poesia social e das causas humanas.

Começou a escrever cedo e aos dezessete anos já tinha seus primeiros poemas e peças declamados e encenados. Aos vinte e um já havia conseguido a consagração entre os maiores escritores daquele tempo, como José de Alencar e Machado de Assis. É o patrono número sete da Academia Brasileira de Letras.

Uma das principais características de sua obra é a eloquência, a utilização de hipérboles, de antíteses, de metáforas, comparações grandiosas e diversas figuras de linguagem, além da sugestão de imagens e do apelo auditivo. O poeta também faz referência a diversos fatos históricos ocorridos no país, tais como a Independência da Bahia, a Inconfidência Mineira (presente na peça O Gonzaga ou a Revolução de Minas),

Diferentemente dos poetas da primeira geração, individualistas e preocupados com a expressão dos próprios sentimentos, Castro Alves demonstra preocupação com os problema sociais presentes na sua época. Demonstra também um certo questionamento aos ideais de nacionalidade, pois, de que adiantava louvar um país cuja economia estava baseada na exploração de sua população (mais especificamente dos índios e dos negros)?

A visão do poeta demonstra paixão e fulgor pela vida, diferentemente dos poetas ultrarromânticos da geração precedente.

 Seus trabalhos mais importantes são:

a) poesia lírico-amorosa: a poesia lírico-amorosa está associada ao período em que o poeta esteve envolvido com a atriz portuguesa Eugênia Câmara. Assim, a virgem idealizada dá lugar a uma mulher de carne e osso e sensualizada. No entanto, o poeta ainda é um jovem inocente e terno em face a sua amada corporificada e cheia de desejo.

Seus poemas mais famosos dessa fase estão presentes em sua primeira publicação, Espumas Flutuantes (1870), conjunto de 53 poemas que versam sobre a transitoriedade da vida frente à morte, sobre o amor no plano espiritual e físico, que apela para o sentimental e para o sensual e sensorial. Além disso, o romance com a atriz portuguesa acendeu no poeta o desejo de escrever sobre esperança e desespero.

Veja um trecho:

Boa-Noite

Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito
— Mar de amor onde vagam meus desejos.

(...)

Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,

Que escalas de suspiros, bebo atento!
Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...
Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa-noite!, formosa Consuelo!...

Neste poema, o poeta, apaixonado, não se contenta com apenas uma amante, e mostra envolvimento com diferentes mulheres (Maria, Marion, Consuelo...), todas belas e sensuais, se oferecendo para que o poeta, meigo e inocente, não vá embora.

Outro poema famoso deste conjunto é O Livro e a América, em que o poeta incentiva a leitura e a produção literária no país:

(...)

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto  --
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe -- que faz a palma,
É chuva -- que faz o mar. 

(...)

 b) poesia social: poeta da liberdade, Castro denuncia as desigualdades sociais e a situação da escravidão no país, além de solidarizar-se com os negros, que eram trazidos de modo precário dentro dos navios negreiros. Castro clamava à natureza e às entidades divinas para que vissem a injustiça cometida pelos homens sobre os homens e intervissem para que a viagem rumo ao Brasil fosse interrompida.

Graças a sua obra empenhada na denúncia das condições dos negros, ficou conhecido como "o poeta dos escravos", por solidarizar-se com a situação dos que aqui vinham e eram submetidos a todo tipo de trabalho em condições desumanas.

As obras mais importantes dessa fase são:

Vozes D'África: Navio Negreiro (1869)

A Cachoeira de Paulo Afonso (1876)

Os Escravos (1883)

 Veja trecho de Navio Negreiro:



Canto VI

Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 Dividido em seis cantos, segundo a divisão clássica da epopeia:



1º canto: descrição do cenário;

2º canto: elogio aos marinheiros;

3º canto: horror - visão do navio negreiro em oposição ao belo cenário;

4º canto: descrição do navio e do sofrimento dos escravos;

5º canto: imagem do povo livre em suas terras, em oposião ao sofrimento no navio;

6º canto: o poeta discorre sobre a África que é, ao mesmo tempo tempo, um país livre, acaba por se beneficiar economicamente da escravidão.

O poema épico é eloquente e verborrágico. Embora o último navio negreiro que tenha chegado ao país date de 1855, a escravidão ainda era parte do sistema econômico brasileiro.

 Saiba mais:



eloquente - que é convincente, persuasivo e expressivo; que se expressa de maneira loquaz.

verborrágico - que se expressa utilizando muitas palavras nem sempre providas de uma ideia lógica.


Curiosidades:



(1) A poesia de Castro Alves já demonstra aspectos, temáticas e tendências do movimento chamado Realista, que "nega" os preceitos românticos embora sua obra seja romântica.

(2) Em 1941 o escritor baiano Jorge Amado escreveu o ABC de Castro Alves, uma biografia sobre o poeta e sua obra. Há um trecho que exemplifica bem tanto a poesia amorosa quando a poesia social do poeta baiano:

Este, cuja história vou te contar, foi amado e amou muitas mulheres. Vieram brancas, judias e mestiças, tímidas e afoitas, para os seus braços e para o seu leito. Para uma, no entanto, guardou ele suas melhores palavras, as mais doces, as mais ternas, as mais belas. Essa noiva tem um nome lindo, negra: Liberdade.

 Sousândrade


“Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa errante será lido cinqüenta anos, depois, entristeci – decepção de quem escreve cinqüenta anos antes”. Estas são palavras de um poeta ousado e de vanguarda, apresenta características de um escritor pré – moderno em pleno Romantismo.
Este poeta é Joaquim de Souza Andrade, conhecido como Sousândrade, nascido no Maranhão em 1833. Foi um poeta desarmônico com a literatura romântica; viajou para a Amazônia, onde conheceu a cultura indígena, e morou em Nova York, tendo contato com a sociedade capitalista americana.

Regressa ao Maranhão depois da Proclamação da República; termina a vida sozinho e pobre. Abandonado pela mulher e pela filha, morre ignorado tanto como cidadão e escritor, em 1902.

O poeta é incluído no período do Romantismo mais por uma questão de cronologia, pois sua linguagem poética nada tinha a ver com o momento literário em que viveu. Sua obra renovadora e ousada não encontrou público no século XIX.

O primeiro livro de Sousândrade só foi publicado em 1962, 60 anos após a sua morte, dois anos antes da publicação de “Primaveras” de Casimiro de Abreu. Graças ao trabalho de Augusto e Haroldo de Campos, críticos e poetas, que revisaram a obra do poeta maranhense e o classificaram como poeta de vanguarda e precursor do Modernismo brasileiro.

Inspirado no povo “quícha” , grupo indígena da América do Sul, o poeta escreveu o poema “Guesa errante” que discorre sobre uma lenda deste povo. No poema há a descrição de um ritual religioso que sacrificava o coração de um menino de 15 nos a ser ofertado ao Deus do Sol.

O poeta se considerava sacrificado pelo tempo em que viveu e que não o reconheceu, um poeta que vagou por vários lugares, que o identifica com o poema que escreveu. O poeta também escreveu poemas e estrofes de amor.

Fragmento de canto IV do “Guesa errante”:

“Sobre seu coração abandonada.
Branca estátua de grande formosura,
Mirava o Guesa errante à namorada,
Como quem se temesse da ventura.”

Questões sobre o Romantismo no Brasil

1) (PUC-RS)

Já de noite o palor me cobre o rosto
Nos lábios meus o alento desfalece.
Surda agonia o coração fenece
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

A relação mórbida com a morte demonstra que parte da poesia de Álvares de Azevedo prende-se ao:

a) idealismo romântico.
b) saudosismo inconformado.
c) misticismo religioso.
d) negativismo filosófico.
e) mal do século.

2) Os excertos poéticos subsequentes integram a valiosíssima produção  artística de uma figura singular que tanto representou nossas letras no cenário nacional – Goncalves Dias. Cabe a você analisá-los, levando-se em consideração as características que demarcaram a primeira fase romântica.

Canção do Exílio 

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

I-Juca Pirama
IV

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

3) (Vunesp - SP)  Leia atentamente os versos seguintes:

Eu deixo a vida com deixa o tédio
Do deserto o poeta caminheiro
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um mineiro. 

Esses versos de Álvares de Azevedo significam a:

a) revolta diante da morte.
b) aceitação da vida como um longo pesadelo.
c) aceitação da morte como a solução.
d) tristeza pelas condições de vida.
e) alegria pela vida longa que teve.

4) (FUVEST – 2001)   

Teu romantismo bebo, ó minha lua,
A teus raios divinos me abandono,
Torno-me vaporoso... e só de ver-te
Eu sinto os lábios meus se abrir de sono.

 Neste excerto, o eu-lírico parece aderir com intensidade aos temas de que fala, mas revela, de imediato, desinteresse e tédio. Essa atitude do eu-lírico manifesta a:

a) ironia romântica
b) tendência romântica
c) melancolia romântica
d) aversão dos românticos à natureza
e) fuga romântica para o sonho

5) Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,

É pela virgem que sonhei...que nunca
Aos lábios me encostou a face linda! 

(Álvares de Azevedo)

A característica do Romantismo mais evidente nesta quadra é:

a) o espiritualismo
b) o pessimismo
c) a idealização da mulher
d) o confessionalismo
e) a presença do sonho

6) Minh’alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o albor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.

 A estrofe apresentada revela uma situação caracteristicamente romântica. Aponte-a.

a) A natureza agride o poeta: neste mundo, não há amparo para os desenganos morosos.
b) A beleza do mundo não é suficiente para migrar a solidão do poeta.
c) O poeta atribui ao mundo exterior estados de espírito que o envolvem.
d) A morte, impregnando todos os seres e coisas, tira do poeta a alegria de viver.
e) O poeta recusa valer-se da natureza, que só lhe traz a sensação da morte.

7) (UFPI)  Assinale a alternativa que traz apenas características do Romantismo:

a) idealismo – religiosidade – objetividade – escapismo – temas pagãos.
b) predomínio do sentimento – liberdade criadora – temas cristãos – natureza convencional – valores 
absolutos.
c) egocentrismo – predomínio da poesia lírica – relativismo – insatisfação – idealismo
d) idealismo – insatisfação – escapismo – natureza convencional – objetividade.
e) n.d.a.

8) Leia o fragmento poético a seguir:

Lembrança de morrer
[...]
De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos, - bem poucos - e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
[...]
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
- Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
CANDIDO, Antonio. "Melhores poemas de Álvares de Azevedo". 5 ed. São Paulo: Global, 2002. p. 45-46.

O significado do título "Lembrança de morrer" e a própria construção textual revelam o caráter diferenciador da poesia ultra-romântica de Álvares de Azevedo, que se expressa nesses versos pela
a) idealização amorosa.
b) tensão reflexivo-crítica.
c) veia humorístico-satânica.
d) manifestação erótico-sensual.
e) celebração do amor demoníaco.

9) Considerando as fases da poesia romântica brasileira, é correto afirmar que o poema apresenta uma
a) atmosfera de erotismo, manifestada pelos encantos da mulher.
b) atitude de culpa, devido à violação do ambiente celestial.
c) negação do ato amoroso, devido ao clima de sonho predominante.
d) tematização da natureza, manifestada na imagem da flor.

10) Relacione aos fragmentos de texto abaixo as seguintes características da poesia ultra-romântica no Brasil.

(1) temática da morte.
(2) angústia existencial.
(3) tédio da vida.
(4) melancolia.
(5) busca de um princípio universal.

( ) Oh! Vem depressa, minha vida foge...
Sou como o lírio que já murcho cai! (Casimiro de Abreu)
( ) Como varia o vento, o céu - o dia,
Como estrelas e estrelas e nuvens e mulheres,
Pela regra geral de todos os seres,
Minha lira também seus tons varia, (Álvares de Azevedo)
( ) Eis o que sou! - A dúvida encarnada,
Que perenal vacila (Junqueira Freire)
( ) Escrevi porque a alma tinha cheia
Numa insônia que o spleen entristecia
De vibrações convulsas de ironia! (Álvares de Azevedo)
( ) Adeus meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade! (Álvares de Azevedo)

A correspondência correta entre os fragmentos e suas características ultra-românticas resulta na seguinte seqüência:

a) (4) (5) (2) (1) (3).
b) (4) (5) (3) (2) (1).
c) (5) (4) (1) (2) (3).
d) (4) (5) (2) (3) (1).
e) (1) (4) (5) (3) (2).

11) (Cefet – MG) Em relação ao Romantismo, pode-se afirmar que:

I –O poeta romântico deixa-se arrebatar pelo conflito entre o mundo imaginário e o real, expresso num sentimentalismo acentuado.

II –Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Gonçalves de Magalhães pertencem à segunda geração romântica.

III –O ilogismo leva o autor romântico a instabilidades emocionais que são traduzidas em atitudes contraditórias: entusiasmo e depressão, alegria e tristeza.

Estão corretas as afirmativas:

a) Apenas I e III.
b)  I, II e III.
c) Apenas II.
d) Apenas I e II.
e) Apenas III.

12) (FUVEST)

I. “Pálida, à luz da lâmpada sombria
     Sobre o leito de flores reclinada,
     como a lua por noite embalsamada,
     Entre as nuvens do amor, ela dormia!”

II. “Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
     Numa rede encostada molemente...
     Quase aberto o roupão... solto o cabelo
     E o pé descalço no tapete rente”.

Os dois textos apresentam diferentes concepções da figura da mulher.

a) Apontar nos dois textos situações contrastantes que revelam essas diferentes concepções.
b) Se ambos os textos são românticos, como explicar a diferença no tratamento do tema?

Gabarito:

1) E   2) Ambas as produções refletem uma ideologia que foi o traço característico da estética em questão – o desejo revolucionário de criar um identidade genuinamente nacionalista, com vistas a exaltar os elementos, as raízes de uma Terra até então sob os poderes dos colonizadores, levando em conta suas riquezas naturais, as quais foram tão exploradas. Há que se mencionar também, principalmente no que se refere ao segundo exemplo, o índio, personagem nativo, que é visto como alguém forte, guerreiro, ora caracterizado como o herói nacional. Mediante tal concepção, ressalta-se que Gonçalves Dias foi bastante influenciado pelas ideias de Rousseau, com o mito do Bom Selvagem.   3) C   4) A   5) C   6) C   7) C
8) B   9) A   10) D    11) A   12) a –Podemos atestar que no texto I tal passagem se manifesta por meio dos seguintes versos:

“[...] Sobre o leito de flores reclinada,
       como a lua por noite embalsamada,
       Entre as nuvens do amor, ela dormia!”.

Enquanto que no texto II, atestamos:

[...] Ela dormia
     Numa rede encostada molemente...
     Quase aberto o roupão... solto o cabelo
     E o pé descalço no tapete rente”.

b) Ao fazermos tal análise, devemos levar em consideração que o texto I é de autoria de Álvares de Azevedo, poeta pertencente à segunda geração romântica. Nele, constatamos que a figura da mulher era concebida como algo intocável, divinizado, ou seja, algo chegando ao plano do inatingível, onírico por sinal, como bem nos apontam os últimos versos: “como a lua por noite embalsamada, entre as nuvens do amor, ela dormia!”.

Já o texto II, sobretudo pelo fato de pertencer ao poeta Casto Alves, pertencente, portanto, à terceira geração romântica, a mulher já não é mais vista sob o plano dos sonhos, mas sim sob uma visão mais realista, razão pela qual constatamos certo erotismo pairando no ar, materializado por meio dos versos: “Quase aberto o roupão... solto o cabelo / E o pé descalço no tapete rente”.





Um comentário:

  1. Adorei aqui!! Akudou muito, de verdade. Obrigada!!

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