segunda-feira, 2 de setembro de 2013

PIB do Brasil surpreende e cresce 1,5% no 2º tri; mas deve desacelerar

A economia brasileira surpreendeu e registrou no trimestre passado o maior crescimento em mais de três anos, puxada pelos investimentos e pelo desempenho da indústria e da agropecuária, mas o consumo das famílias ainda patina.
Apesar do resultado melhor do que o esperado entre abril e junho, a atividade econômica vai perder fôlego no terceiro trimestre, podendo ficar estagnada ou mesmo mostrar retração, abalada sobretudo pela confiança, avaliam analistas.
O Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 1,5 por cento no segundo trimestre na comparação com os primeiros três meses deste ano, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira. Foi a maior alta desde o primeiro trimestre de 2010, quando ela ficou em 2,0 por cento.
Sobre o segundo trimestre de 2012, o avanço entre abril e junho foi de 3,3 por cento. Pesquisa Reuters mostrou que, pela mediana de previsões, a expansão seria de 0,9 por cento na margem e de 2,5 por cento sobre igual período de 2012.
"Foi um bom crescimento, forte e espalhado por todas atividades", resumiu a economista do IBGE Rebeca Palis.
A indústria cresceu 2,0 por cento no segundo trimestre sobre o primeiro, depois de ter recuado 0,2 por cento entre janeiro e março passados. Sobre um ano antes, o setor teve expansão de 2,8 por cento no último trimestre, com destaque para o segmento de construção civil.
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), uma medida de investimento, subiu 3,6 por cento no primeiro trimestre sobre o período imediatamente anterior, enquanto o setor agropecuário expandiu 3,9 por cento.
Na comparação anual, essas atividades tiveram crescimento expressivo de 9,0 e 13,0 por cento respectivamente.
"Houve crescimento da produção interna de bens de capital... O câmbio melhor ajuda na menor importação e há ainda programas internos de incentivo. Algumas empresas reformaram a frota no trimestre e isso entra como investimento, além de maquinas agrícolas", avaliou a economista do IBGE.
O consumo das famílias, porém, cresceu apenas 0,3 por cento, enquanto o consumo do governo subiu 0,5 por cento no trimestre passado, em comparação a janeiro a março, depois de terem ficado estagnadas no primeiro trimestre.
Apesar da recuperação no trimestre passado, a atividade já está perdendo fôlego, afetada sobretudo pela falta de confiança generalizada na economia, abalada ainda mais pelas manifestações populares em junho.
"O número (do trimestre passado) surpreendeu. A agricultura teve crescimento bastante forte e houve mais formação bruta de capital fixo... Muito provavelmente o terceiro trimestre vai ser mais fraco, não só pelo número forte do segundo trimestre, mas também pelos indicadores", afirmou o economista sênior do Espirito Santo Investment Bank, Flavio Serrano.
No ano, o economista prevê crescimento de 2,3 por cento, mas no terceiro trimestre ele deve ficar "perto de zero". Para Serrano, "o quarto é a grande dúvida".
Indicadores de confiança das empresas e consumidores caíram nos últimos meses, especialmente após os protestos. A geração de postos de trabalho formais recuou em julho ao menor nível para o mês em uma década, enquanto o dólar chegou a disparar quase 20 por cento em apenas quatro meses, o que poderia afetar investimentos e alimentar a inflação já alta.
O próprio governo já sabe que a economia deve perder fôlego na segunda metade do ano, e que o terceiro trimestre pode ter desempenho pior do que o período anterior, o oposto da avaliação que prevalecia há poucos meses.
O cenário de baixo crescimento vem junto com a inflação ainda elevada no país, que já levou o Banco Central a elevar a Selic em 1,75 ponto percentual, para 9,0 por cento ao ano, com mais aperto monetário esperado.
A desaceleração da economia também coincide com a instabilidade nos mercados em meio aos planos do Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, de reduzir o estímulo à economia norte-americana.
OTIMISMO PARA O FINAL DO ANO
Tanto economistas como o governo esperam que, apesar do tropeço esperado para o terceiro trimestre, a economia brasileira encerre o ano voltando a se expandir.
Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o bom resultado da atividade visto em abril e junho, pode recompor a confiança na economia e levar o país a voltar a ter expansão anual média de 4 por cento em 2014.
Para o gerente de renda fixa da Lerosa Investimentos, Fernando Mendes, o desempenho de agora da economia deve levar a uma correção, e para cima, do resultado esperado para este ano fechado.
"A gente acha que como a base desse segundo trimestre é alta, é natural que você tenha um arrefecimento no terceiro trimestre. Mas eu acho que, de forma geral, o PIB do ano deve sofrer realmente uma correção um pouco para cima", afirmou ele, para quem a expansão deve ficar entre 2 e 2,5 por cento.
O resultado do segundo trimestre foi inesperado até mesmo dentro da equipe econômica da presidente Dilma Rousseff. Uma importante fonte desse time afirmou à Reuters que a economia brasileira pode encerrar o ano acelerando sim, mas que isso não "muda muito" a política monetária.
O Banco Central iniciou o atual ciclo de aperto monetário em abril passado, para combater a inflação elevada, apesar de a economia ter perdido fôlego. Na última quarta-feira, o Comitê de Política Monetária do BC elevou o juro básico novamente em 0,5 ponto percentual, para 9,0 por cento ao ano.
Segundo o IBGE, o crescimento brasileiro no trimestre passado ante o segundo trimestre de 2012, coloca o país em posição intermediária no grupo dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
Nessa mesma comparação, China e Índia tiveram crescimento de 7,5 e 4,4 por cento, respectivamente, mas África do Sul e Rússia avançaram no período 2 e 1,2 por cento, respectivamente.

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